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O novo normal da doação

Como as mudanças na sociedade pós-pandemia podem influenciar a maneira de mobilizar recursos para garantir a sustentabilidade financeira das organizações sociais.


Crises são como janelas fechadas que, repentinamente, precisam ser escancaradas para o ambiente ventilar. Durante a pandemia do Covid-19, em meio às dificuldades e ao sofrimento por tantas vidas perdidas, pessoas, empresas e outras organizações se mobilizaram no apoio ao sistema de saúde e às populações mais vulneráveis. O Monitor das Doações contabilizava no início de agosto mais de R$ 6 bilhões arrecadados para essas causas, somando quase 500 mil doadores.


O monitor considera as doações feitas publicamente, ou seja, não inclui o gás de cozinha que o Zé Carvalho, de Recife, ajudou muitas famílias a comprar, os quadros e objetos transformados em cestas básicas por meio de rifas e muitas outras ações de solidariedade que vimos brotar em nosso entorno e em todo o país.


O que se descortinou, nessa crise, foi a potência da sociedade civil. Como podemos, a partir dessa vivência, articular uma nova realidade? Um jeito de aprofundar a discussão é entender o comportamento doador da população.


Somos uma sociedade doadora?

Ainda que o cenário pós-pandemia possa trazer novos dados, vale olhar as informações que temos até o momento. A pesquisa Brasil Giving 2020 – Um retrato das doações no Brasil realizada pela Charities Aid Foundation e publicada pelo Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS) traz um retrato que salta aos olhos:

  • 8 em cada 10 dos entrevistados afirmaram que o trabalho das organizações sociais têm um impacto positivo em suas comunidades.

  • 78% afirmaram ter feito ao menos uma atividade beneficente no período pesquisado (agosto de 2018 a julho de 2019).

  • 67% das pessoas tinham feito doações em dinheiro nesse período.

A Pesquisa Doação Brasil, divulgada em 2016 pelo IDIS e pelo Instituto Gallup e apoiada pelo Movimento por uma Cultura de Doação, tinha mostrado que as doações realizadas por indivíduos somavam R$ 13,6 bilhões ao ano. A principal referência em filantropia, até então, era o investimento social privado, feito por empresas, institutos e fundações, que então era de R$ 3 bilhões, segundo dados do Censo GIFE.


Éramos, lá em 2016, quase 60 milhões de doadores e o valor destinado individualmente girava em torno de R$ 240,00 ao ano. As principais causas apoiadas, naquele momento, eram as crianças, a saúde e o combate à pobreza.


Onde estamos...

O brasileiro é solidário, mas ainda temos muito a fazer. Enquanto por aqui as doações equivalem a 0,23% do PIB, nos Estados Unidos, representam 1,5% e no Reino Unido 0,5%. São realidades distintas, mas poucos pontos depois do zero já podem fazer muita diferença.

A batalha pelo acesso a recursos faz parte do cotidiano das organizações sociais, que têm apenas 10% de suas receitas brutas oriundas de repasses dos governos municipais, estaduais e federal, como mostra a edição de 2015 do Perfil das Organizações da Sociedade Civil no Brasil, um estudo feito pelo Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA). As demais fontes de recursos são eventos, doações incentivadas e diretas feitas por empresas, doações de pessoas físicas, crowfunding, fundos privados e, em alguns casos, financiamento externo.


Na pandemia, ficou evidente as dificuldades enfrentadas por muitas dessas organizações para manterem suas atividades e continuarem a dar assistência às populações atendidas. Além de ampliar a base de doadores e o montante de recursos, o desafio é tornar as doações regulares para fortalecer institucionalmente as ONGs e, assim, potencializar a transformação social.


E para onde vamos...

No cenário pós-pandemia, como mobilizar mais e mais pessoas para superar esses desafios? É difícil prever como as coisas irão acontecer, mas podemos imaginar alguns caminhos para o novo normal das doações a partir das mudanças já percebidas na sociedade.


#1 Ser digital

A digitalização das doações é um movimento que já vinha acontecendo há algum tempo, mas que foi acelerado nos meses de distanciamento social. Como nos demais setores, o digital fará parte do novo normal, inclusive no campo da mobilização de recursos. Essa tendência coloca para as organizações da sociedade civil a urgência de repensarem seus processos de captação. Uma das alternativas é o uso do QR Code para facilitar que as pessoas doem no instante em que ficam sabendo da campanha de doação. O Mercado Livre gera QR Codes para você.


#2 A volta da filantropia de assistência

Durante as últimas décadas, pessoas e organizações doadoras buscaram se distanciar do assistencialismo, praticando uma filantropia mais estratégica, “que não dê o peixe, mas ensine a pescar”. Acabaram, assim, se distanciando da assistência social, um direito garantido pela constituição e diferente do assistencialismo.

A pandemia escancarou a necessidade de ampliar os investimentos nessa área e, segundo o Monitor das Doações, quase 20% dos recursos mobilizados nos últimos meses foram destinados a combater a fome e a prover itens básicos de saúde e higiene, reforçando que, sim, esses temas são estratégicos porque são o primeiro passo na proteção dos direitos dos cidadãos.


#3 Um Brasil mais doador

O volume de doações para o combate ao Covid-19 ultrapassou todas as expectativas, mas já começamos a ver essa mobilização emergencial refrear. É importante, nesse momento, gerar vínculos, contar histórias, sensibilizar e mostrar que juntos podemos mais. Se soubermos fazer isso, uma parte dessa onda de generosidade poder se propagar nos próximos anos, criando um Brasil mais doador e uma sociedade mais engajada na solução de seus problemas.


#4 Voluntariado remoto

O home office também parece que veio para ficar, ao menos parcialmente, mesmo com o retorno aos locais de trabalho. Nesse conceito, o trabalho voluntariado remoto pode ser uma ferramenta para fortalecer as organizações sociais. Quem conseguir articular uma rede de pessoas que dediquem algumas horas mensais para apoiar áreas como gestão, organização financeira, compras e comunicação poderá se beneficiar dessa tendência. Outro campo em que o voluntariado remoto pode funcionar bem é a comunicação: atualizar o site, manter uma rotina de publicações nas redes sociais ou produzir histórias a serem compartilhadas, por exemplo, são atividades que funcionam bem no online.


#5 Trabalho em rede

Durante a pandemia diferentes atores se organizaram para contribuir com a solução de problemas sociais e, mais recentemente, para dar respostas a questões ambientais, especialmente na Amazônia. Vimos empresas e bancos trabalhando juntos em várias iniciativas. As organizações sociais também se articularam para criar fundos de investimentos emergenciais e promover outras ações. O trabalho em rede foi, assim, evidenciado e pode ser fortalecido nos próximos anos.


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